terça-feira, 26 de outubro de 2010

Fassbinder e o Medo da Solidão

O Cinema de Fassbinder e o Medo da Solidão








“Posso

dormir

quando

estiver

morto”




Segundo o ator Harry Baer,

esta foi a filosofia do hiperativo

Rainer Werner Fassbinder (1)



Amadurecendo na Alemanha Ocidental


Peter mora com os pais, mas está construindo uma casa para eles. Os três moram num apartamento anexo a um bar de propriedade do pai. Peter volta da obra e sua mãe o repreende por estar com as unhas sujas, então ele tem um flashback onde se lembra de quando era criança e seus pais estavam decidindo quem ia bater nele por ter roubado um buquê de flores para ela - a mãe bate nele com um cabide até quebrar (imagens acima e abaixo, à direita); no fim dessa lembrança, vemos num flash rápido ele atingindo um homem pelas costas furiosamente. Quando a casa deles fica pronta, não reconhecem o esforço do filho. Casando-se e mudando de cidade acredita que pode “começar de novo” - numa vã tentativa de escapar do abismo que Peter ainda não compreendeu que está dentro dele. Mas sua esposa lhe oferece tanto amor quanto os pais dele. Seguindo padrão de comportamento, para Erika, a esposa, Peter dá roupas, jóias e compra uma mobília que não tinha condições financeiras para adquirir. Quando descobre que o oficial de justiça virá recuperar a mobília, ele pergunta melancolicamente: “O que eu devo fazer? Eu só quero que vocês me amem”. Peter tenta ganhar mais dinheiro fazendo horas extras.








Peter ilustra o tema

clássico de alguém que

reproduz a opressão

da qual foi vítima





Erika o estimula a pedir dinheiro emprestado aos pais, mas ele não consegue. Arruma um segundo emprego e cai em profunda depressão. Chega a comprar uma arma e planeja um assalto. Vê uma chance no apartamento da avó de sua esposa, mas recua. Vai à cervejaria do prédio da velha senhora e fica esperando o momento certo. O dono é anti-semita e intolerante com a juventude. O homem começa a brigar com um rapaz que pede cerveja depois que o bar fechou, chamando-o de parasita e preguiçoso. Subitamente, toda a exploração que Peter absorveu passivamente durante sua vida se transforma em fúria e atinge violentamente o dono do bar com o telefone – talvez Peter tenha considerado a oportunidade para um assalto, mas o homem era fisicamente muito parecido com seu pai. Tendo sido descoberto no ato, Peter chora e chama pela mãe - quase sem conseguir pronunciar a palavra “mãe”. Sentenciado a dez anos de prisão, durante o acompanhamento psiquiátrico Peter revela que seu pai dizia que o filho não tinha futuro. A doutora pergunta: “Você está feliz por estar vivo?” Peter hesita com seu olhar perdido e se retira (2).
Sentimentos São Para Vender





Fassbinder dizia que

gostava de colocar seus

amigos em cena nos seus

filmes. Seria essa a razão

de dar personagens para

sua mãe. Podemos dizer

que ele contracena com

a ausência de seu pai?

 

Eu Quero Apenas que Vocês me Amem (Ich will doch nur, dass ihr mich liebt, 1975) foi realizado entre dois filmes políticos de Rainer Werner Fassbinder, Mamãe Kusters Vai ao Céu (Mutter Küsters Fahrt zum Himmel, 1975) e A Terceira Geração (Die Dritte Generation, 1979). O filme em questão foi rodado numa passa das filmagens de O Assado de Satã (Satansbraten, 1975), juntos eles podem ser interpretados como o auto-retrato de um artista em crise, projetando versões extremas de lados opostos de si. Vistos juntos, Eu Quero Apenas que Vocês me Amem e O Assado de Satã exploram a personalidade bipolar de Fassbinder, como, aliás, ele já havia se mostrado em Cuidado Com a Puta Sagrada (Warnung vor einer heilingen Nutte, 1970), onde poderia ser identificado com personagem principal, ao mesmo tempo maltratado e explorador. Se em O Assado de Satã Fassbinder se identificou a um personagem sem escrúpulos, em Eu Quero Apenas que Vocês me Amem o personagem central é vulnerável, maltratado e explorado. Foi apenas um impulso irracional que o levou a atingir e matar alguém que momentaneamente simbolizava a opressão dos pais. O filme é baseado no caso real de um jovem preso por assassinato. Houve também suspeitas de que Fassbinder tenha plagiado uma peça veiculada pela televisão alemã na época (3). (Imagem acima, à esquerda, Peter após receber dinheiro do pai e disfarça diante da mãe, que chega na bem na hora; abaixo, à direita Peter com Erika, o casal está falido e ela havia insistido para que Peter pedisse dinheiro aos pais; ele não conseguiu fazê-lo, mas por sorte recebeu algum dinheiro)








Nessa época,

Fassbinder enfrentava

uma profunda crise de identidade (4)







 
Wallace Steadman Watson ressalta que Peter tem muito em comum com Hanns Epp, de O Mercador das Quatro Estações (Der Händler der vier Jahreszeiten, 1971). Hanns também se sente rejeitado por seus pais aburguesados, arruma um emprego de classe operária e se deprime cada vez mais, na medida em que internaliza os insultos dirigidos a ele. Ao contrário de Hanns, Peter não morre no final – pelo menos tecnicamente, ele continua vivo! Supondo que, como sugere Watson, uma interpretação de Eu Quero Apenas que Vocês me Amem como uma obra autobiográfica seja possível ou razoável, então quando tomada em conjunto com O Assado de Satã, a saga de Peter poderia ser vista como uma projeção imaginária do lado vulnerável da personalidade de Fassbinder. O filme poderia ser uma fantasia de Fassbinder a respeito de sua infância problemática, na qual a ausência de atenção dos pais é interpretada como maus tratos e exploração sistemática. Além disso, a ausência do pai teria assumido a forma de um dono de cervejaria maltratando um jovem com jaqueta de couro – um pai substituto que a criança vitimada tem que matar; Eu Quero Apenas que Vocês me Amem inaugura a presença dos duplos na obra de Fassbinder, o homem da cervejaria é uma cópia do pai de Peter. Yann Lardeau também inclui este filme entre aqueles do cineasta que carregam uma referência religiosa - a história do calvário de Peter. O repúdio de seus pais, a falta de confiança, autoconfiança e amor levam Peter a tentar roubar e acabar matando. Porém afirma Lardeau, esse desejo de morte é menos direcionado aos outros do que a ele mesmo. Uma autodestruição indireta, pois, mesmo na revolta, dar razão as opiniões negativas de seus pais sobre ele e seu futuro de pessoa inútil (5).











Muitas vezes, nos filmes de

Fassbinder, as explicações médicas

ou ideológicas de um comportamento como o de Peter aparecem como um signo da insuficiência delas (6)





Watson também se refere a outra interpretação corrente para a hipótese autobiográfica. Haveria uma conexão entre o hábito de Peter dar muitos presentes como sua maneira de comprar amor – construir uma casa para seus pais, comprar flores e mobília para a esposa – e a inclinação do próprio Fassbinder adulto de comprar presentes caros para seus amantes e pagar a conta de refeições caras e viagens para seus amigos. Contudo, de acordo com Juliane Lorenz, apesar dele “realmente gostar de dar presentes”, essa não seria para ele uma forma neurótica de ganhar amor. Numa entrevista em 1975, Fassbinder contou que Peter é um “homem servil” (capacho, lacaio) que aprendeu cedo através de seus pais que “sentimentos são para vender” – seja diretamente através de presentes ou conformando-se as expectativas dos outros. Ele afirmou que Eu Quero Apenas que Vocês me Amem foi um projeto muito pessoal, concebido como forma de auto-exame após a experiência no comando do grupo teatral (uma espécie de família) do Teatro na Torre (Theater am Turm, TAT). Fassbinder disse que pretendia fazer um filme como um meio de considerar “no que eu tenho me deixado entrar até agora” (7).







A reflexão sobre sentimentos

permitiu a Fassbinder trabalhar

diferentes temas. No caso deste filme,

criminalidade entre os jovens. Na cela

de Peter na prisão existe um móbile

com três mãos. Cada uma aponta

numa direção diferente (8)


Robert Katz e Peter Berling adicionam mais um elemento problemático quando afirma que Fassbinder tinha fascínio pelo que chamava de “a beleza do sofrimento”. O sado-masoquismo está presente na vida e nas obras do cineasta, em vários de seus filmes ele põe em prática o mecanismo de dupla sujeição (double bind) que leva tantas relações afetivas a uma rua sem saída. Katz e Berling nos lembram que em Eu Quero Apenas que Vocês me Amem e Roleta Chinesa (Chinesisches Roulette, 1976), a falta de amor dos pais gera violência. Juntamente com Cuidado com a Puta Sagrada (onde um cineasta é ao mesmo tempo implacável e frágil), O Assado de Satã (onde protagonista leva uma surra e descobre que sente prazer com a dor) nos dá um auto-retrato de Fassbinder onde, como ele mesmo declarou, “tentei fazer uma comédia sobre mim mesmo; observando, de certa distância, o meu lado negativo; é uma comédia sobre como eu talvez seja, se bem que não creia que seja assim”. De acordo com Katz e Berling, os “talvez” e “não creio” ficam por conta da malícia do cineasta. Harry Baer, amigo de Fassbinder, tendo atuado em muitos de seus filmes, o processo de trabalho dele era muito complexo. Pesadelos infantis e juvenis pela falta de afeto, solidão, medo de contato com as pessoas e puberdade não vencida, tudo isso embaralhado com imagens de filmes noir e filmes B norte-americanos e franceses, além de filmes alemães antigos. Cinema como compensação da vida, concluiu Baer (9). (as duas imagens abaixo, Peter, Erika e as flores)


Circuitos Instáveis de Troca


Tanto a mãe

de Peter quanto sua

esposa só reclamam

e são incapazes

de dar amor







Harry Baer explicou que com seus primeiros filmes Fassbinder não consegue libertar-se das suas visões, continua sempre abrindo velhas feridas e atormenta e si mesmo e a sua mãe que, de acordo com Baer, suporta a tortura com incrível paciência. O ator cita um filme do cineasta, Deuses da Peste (Götter der Pest, 1969), com um forte caráter sado-masoquista. Numa cena onde seu personagem sai da prisão, minha mãe (a mãe de Fassbinder atua no papel sob o pseudônimo do Lilo Pempeit) meio confusa apenas balbucia “meu filho!”. Ela se apóia em meu irmão e, totalmente insegura, coloca um disco com uma canção revolucionária também não muito própria para a ocasião. Baer se perguntou então do que Fassbinder estaria tentando vingar-se (10). Neste filme Rainer Werner Fassbinder explora, entre outras coisas, a instabilidade inerente ao paradoxo das obrigações: dar e receber, receber e trocar. Circuitos instáveis de troca. Instabilidade cujo equilíbrio reclama uma mudança de registro: seja a troca simbólica entre a arte e a ilusão, ou entre a moeda emocional do sexo e a da violência (sadomasoquismo?), ou mesmo entre o amor e o terror psíquico ou, ainda, um luxuoso estilo de vida que a qualquer momento pode desmoronar.


Quando criança, Peter internalizou a insistência

de seus pais para que ele constantemente provasse

ser um “bom garoto”










Como lembrou Thomas Elsaesser, se pudéssemos trazer dois títulos de filmes de Fassbinder que evidenciam o desequilíbrio entre os diferentes circuitos postos em tensão durante as trocas, poderíamos citar Eu Quero Apenas que Vocês me Amem e O Amor é Mais Frio do que a Morte (Liebe ist kälter als der Tod, 1969). Dois filmes, Elsaesser sugere, que ligam os dois pólos aos quais se articula a vida de Fassbinder e sua atividade de cineasta. O tema da opressão, tanto dos homens em relação às mulheres quanto delas em relação a eles, é recorrente na obra de Fassbinder. Ainda de acordo com Elsaesser, tanto Peter quanto Franz Biberkopf, personagem de A Encruzilhada das Bestas Humanas (Wildwechsel, 1972), compartilham um mesmo ódio as mulheres. A mãe e a esposa de Peter reclamam o tempo todo e se mostram incapazes de amar, esta é uma configuração que Fassbinder retomará em todos os seus filmes a partir de O Mercador das Quatro Estações. Na opinião de Elsaesser, o didatismo e clareza de Eu Quero Apenas que Vocês me Amem lembra outro filme de Fassbinder, O Medo do Medo (Angst vor der Angst, 1975) (11).
Lar Doce Lar











Eu Quero

Apenas que Vocês me Amem é a história de

um parricídio



“Eu sou meu próprio pai”, Fassbinder gostava de dizer enquanto rejeitava a família nuclear. Sua mãe, Liselotte Eder, disse que não saberia dizer quais as relações entre o cineasta e o pai dele, mas chama atenção para o fato de que em todos os filmes que o filho dirigiu cujo roteiro havia sido escrito também por ele, não existe pai. A única exceção, justamente Eu Quero Apenas que Vocês me Amem, é um parricídio disfarçado. Liselotte conta a história que ainda não sabemos. Ela se casou com o pai de Fassbinder em 1944. Em plena guerra, ele só passou a viver com ela a partir de 1945, já que ele era médico do exército alemão. Entretanto, nesse mesmo momento chegou toda a família dela, o pai, a mãe, irmãos e irmãs – a Alemanha estava destruída após a guerra e não havia moradia para todos. Com tantos vivendo entulhados num apartamento muito pequeno, sensíveis e emotivos em razão da situação familiar e do país, o casamento estava fadado ao fracasso – nascido em 1946, Fassbinder cresceu nesse ambiente (12). A família de Maria, que Fassbinder enfiou num apartamento semi destruído em O Casamento de Maria Braun (Die Ehe der Maria Braun, 1978), lembra essa situação. Por outro lado, renegar a família não significa que o cineasta não fale sobre ela. Na verdade, diria Lardeau, ao contrário de seus conterrâneos, os cineastas Werner Herzog e Wim Wenders, a família humana acaba sendo o tema do cinema de Fassbinder (13).

O vestido da doutora

que atende a Peter

na prisão tem uma

estampa com flores


Apesar de viver com aquele monte de gente, era pequeno demais para saber quem era quem. Contou também que estabelecera uma relação de amizade com a mãe e por isso a fez trabalhar com personagem de seus filmes. O melhor, ele sempre colocava seus amigos trabalhando em seus filmes. Quando meus pais se divorciaram em 1951, conta Fassbinder, ele tinha seis anos. Então ele passou da família enorme espremida num apartamento para a solidão compartilhada com a mãe. De acordo com Yann Lardeau, essa solidão foi a tela de fundo de Eu Quero Apenas que Vocês me Amem. O filme começa com o flashback onde um Peter ainda criança leva uma surra da mãe por haver roubado flores da vizinha para oferecer a ela. Estas flores tornam-se o tema central (leitmotiv) do filme. Peter sempre oferece flores quando chega do trabalho. Até o papel de parede do apartamento onde morava com os pais tem flores. Elas se tornam, sugere Lardeau, a linguagem do amor ausente, do amor recusado. O tema das flores vem da história pessoal de Fassbinder. Sua mãe disse lembrar-se da generosidade de um garoto que pega seu dinheirinho e compra flores para a mãe e a avó. Ao passo que o cineasta disse lembrar-se de uma série de tentativas infrutíferas para comprar o amor de uma família fria e aburguesada (14). (nas duas imagens acima, Peter durante a entrevista com a terapeuta na prisão; a última imagem mostra Peter em sua sela)


Você não sabe

o que é estar só. Você

não sabe nada!
Por duas vezes Peter diz a Erika que uma mulher não deve deixar seu filho sozinho. Esta foi a razão que ele deu a esposa para que ela parasse de trabalhar para cuidar do filho recém nascido, mesmo o casal estando sem dinheiro. Esta frase parece encontrar um eco na infância de Fassbinder, uma espécie de medo da solidão. Em 1982, Fassbinder passou dez dias com Dieter Schidor em Cannes. Chegou uma hora que Schidor pediu para ter uma noite de sono – Fassbinder vivia de noite. Às duas horas da madrugada, o cineasta começa a bater insistentemente na porta de Schidor - que tentou tapar os ouvidos com o travesseiro - até que os hóspedes nos outros quartos começaram a reclamar. Schidor se rendeu, abriu a porta e Fassbinder exclamou: “Você não tem idéia do que é ficar sozinho, você não tem idéia, você não sabe de nada!” (15).

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Um estranho no ninho-1975


Sinopse:

Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson), um prisioneiro, simula estar insano para não trabalhar e vai para uma instituição para doentes mentais, onde estimula os internos a se revoltarem contra as rígidas normas impostas pela enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher). Mas ele não tem idéia do preço que irá pagar por desafiar uma clínica "especializada".

Curiosidades:

•A história do livro no qual se baseou Um Estranho no Ninho foi escrita por Ken Kesey tendo como base suas próprias experiências quando trabalhou no centro psiquiátrico Agnew, localizado em San Jose, na Califórnia.

•Ken Kesey, autor do livro o qual Um Estranho no Ninho foi baseado, certa vez declarou que nunca assistiria o filme dirigido por Milos Forman.

•Durante muitos anos os direitos autorais para o cinema do livro de Ken Kesey pertenceram ao ator Kirk Douglas, que terminou cedendo-os ao seu filho Michael, um dos produtores do filme.

•Quando comprou os direitos para o cinema do livro de Ken Kesey era intenção de Kirk Douglas que ele mesmo protagonizasse o filme. Porém, como o filme demorou a sair do papel, Douglas terminou abrindo mão do personagem por considerar-se muito velho para o personagem.

•O personagem Randle Patrick McMurphy foi originalmente oferecido a James Caan, que recusou o papel.

•Existem rumores de que Jack Nicholson sumira dois meses antes do início das filmagens de Um Estranho no Ninho e apenas foi encontrado no início das filmagens, quando o restante do elenco chegou ao hospital psiquiátrico onde o filme seria rodado e lá encontrou o próprio Nicholson, que vivera ali internado como se fosse um paciente, como preparação para o personagem.

•Um Estranho no Ninho foi o primeiro filme dos atores Brad Dourif, Christopher Lloyd, Will Sampson, Tim McCall e Dean R. Brooks.

•Vários dos extras que trabalharam em Um Estranho no Ninho são realmente doentes mentais. - Este é o 1º de 5 filmes em que Jack Nicholson e Anjelica Huston atuaram juntos. Os demais foram O Último Magnata (1976), O Destino Bate à Sua Porta (1981), A Honra do Poderoso Prizzi (1985) e Acerto Final (1995).

•Um Estranho no Ninho foi o segundo filme na história a ganhar os cinco principais prêmios do Oscar.

Apenas outros dois filmes conseguiram igualar tal façanha:Aconteceu Naquela Noite (1934) e O Silêncio dos Inocentes (1991).

Informações:

Título Original: One Flew Over the Cuckoo's Nest
Direção: Milos Forman
Origem: EUA
Duração: 134 min
Idioma: Inglês
Legendas: Português
Formato: rmvb
Tamanho: 477 mb

Servidor: Megaupload

Dowload
http://www.megaupload.com/?d=LGO9ORR9
Artigo: A Origem (2010) de Christopher Nolan






"A Origem, de Christopher Nolan. Muito provavelmente, o melhor filme do ano."(Contém Spoiler a partir da segunda e terceira parte do texto)







Ao longo de sua carreira, o cineasta britânico Christopher Nolan comandou sete longas-metragens: Following, Amnésia, Insônia, Batman Begins, O Grande Truque, O Cavaleiro das Trevas e A Origem. Destes, assisti a seis (ainda não conferi sua estréia na função) e classifiquei todos, exceto um, como “cinco estrelas” (a refilmagem Insônia ganhou quatro). Mas mais significativo é o fato de que, dos cinco sobre os quais escrevi, nada menos do que três (incluindo este A Origem) inspiraram críticas que exigiram ser divididas em duas (ou - aqui - três) partes para que eu pudesse abordar melhor a complexidade temática e/ou narrativa das obras – e se você ficou confuso com a quantidade de números que citei neste primeiro parágrafo, aconselho que evite o novo trabalho do diretor, que tampouco oferece uma jornada fácil aos seus espectadores.



Concebido como uma mistura incrivelmente eficiente de Paprika, Sinédoque, NY, Rififi e Matrix, A Origem é uma ficção científica que faz jus aos melhores do gênero, apresentando-nos a conceitos intrigantes e dedicando-se, então, a explorá-los até suas conseqüências mais extremas. Escrito pelo próprio Christopher Nolan com uma inteligência que deixaria Philip K. Dick orgulhoso, o roteiro acompanha um grupo de espiões industriais que, liderados por Don Cobb (DiCaprio), invadem não os escritórios ou cofres das empresas-alvo, mas as mentes de seus principais executivos. Efetuando esta invasão durante os sonhos das vítimas, os ladrões são capazes até mesmo de simular níveis diferentes de “realidade” dentro da mente na qual se encontram com o objetivo de enganar o sonhador e convencê-lo a entregar seus segredos mais valiosos. É então que o poderoso Saito (Watanabe) decide contratar os espiões para que façam o procedimento inverso, plantando uma idéia na mente do jovem bilionário Robert Fischer (Murphy) – uma tarefa não só inédita, mas que pode trazer grandes riscos para Cobb e seu parceiro Arthur (Gordon-Levitt).

Um dos aspectos mais fascinantes deste intrigante conceito de invasão de sonhos (presente também na já citada animação Paprika e em Morte nos Sonhos) reside na idéia – perfeitamente explicada pela neurologia, que a identifica como um mecanismo de proteção do sono - de que fatores externos à mente possam influenciar os eventos presentes no universo onírico. Assim, sons, cheiros e movimentos detectados pela pessoa em repouso podem ser traduzidos em detalhes dos sonhos exatamente como o toque de um despertador muitas vezes é absorvido e transformado num som “reconfigurado” pela mente adormecida – algo que Nolan emprega ativamente no filme, por exemplo, ao trazer uma chuva torrencial como conseqüência da vontade do “sonhador” de ir ao banheiro ou, num dos melhores momentos do longa, ao enfocar um hotel que deixa de respeitar as leis da gravidade em função da situação caótica na qual se encontram as pessoas em cujos sonhos aquele prédio se encontra. Estas subversões da lógica do “mundo real”, aliás, são impecavelmente ilustradas pelos brilhantes efeitos visuais, que só não serão indicados ao Oscar caso os membros da Academia tenham dormido durante a projeção. Da mesma maneira, o fantástico design de produção se encarrega de dar vida a ambientes que, mesmo trazendo uma aparência sólida de realidade, freqüentemente surpreendem ao revelar níveis de insuspeita complexidade, como a “escadaria infinita”, o limbo arquitetado por Cobb ou a luxuosa edificação que abre a narrativa.
Aliás, em um primeiro momento, é possível que esta “aparência sólida de realidade” possa ser interpretada como uma oportunidade desperdiçada por Nolan e sua equipe – afinal, numa narrativa intensamente calcada num universo onírico, por que não subverter constantemente as leis da física e investir em mudanças abruptas (e mesmo absurdas) da geografia ou da lógica do que estamos vendo? Por que, por exemplo, ninguém se flagra nu em público ou descobre-se incapaz de se mover, representando sonhos comuns que poderiam despertar reações no espectador que enxergasse suas próprias experiências como “sonhador” na tela? A resposta, creio, deve-se mais à disciplina do cineasta como contador de histórias do que a uma possível falta de imaginação: já bastante convoluta ao envolver múltiplos níveis de realidades que se engolem como bonecas russas, a narrativa poderia facilmente atravessar a fronteira entre o complexo e o incompreensível, sendo prejudicada justamente por suas ambições. Além disso, ao trazer a figura de uma arquiteta (Page), Nolan justifica narrativamente a “solidez” do sonho, que surge, então, cuidadosamente planejado e organizado pelos invasores justamente para que se apresente com um mínimo de coerência interna que permita sua ação como espiões.
Ainda assim, A Origem não busca simplificar sua narrativa para o espectador, já que, além de envolver, como já citado, níveis diferentes de sonhos-dentro-de-sonhos (algo que fica claro na seqüência que abre o filme), logo descobrimos que o tempo tem duração diferente dependendo da profundidade na qual os heróis se encontram. Neste sentido, aliás, o roteiro busca complicar ao máximo o trabalho do montador Lee Smith, que, além de manter a ação num ritmo constante, é obrigado a enfocar ações paralelas que se passam em ambientes com regras próprias quanto à duração dos eventos que abrigam – e tudo isso sem que permita que a narrativa se torne indecifrável para o público, saindo-se admiravelmente bem na tarefa. (Já indicado ao Oscar por Mestre dos Mares e O Cavaleiro das Trevas, Smith provavelmente voltará à cerimônia pela terceira vez graças ao seu excepcional esforço nesta produção.)

Enquanto isso, o compositor Hans Zimmer faz um de seus melhores trabalhos ao criar uma trilha que já confere uma atmosfera sinistra e sombria ao filme desde os seus primeiros segundos, mas que, além disso, exibe uma lógica interna fabulosa ao empregar a base melódica da canção “Non, Je Ne Regrette Rien” (tornada famosa por Édith Piaf) como fonte do tema principal da narrativa ao executá-la numa cadência mais lenta – o que estabelece uma rima musical/temática perfeita com a música de Piaf, que, afinal, desempenha importante papel na trama. Da mesma forma, os figurinos ajudam a estabelecer com eficiência as personalidades dos personagens, desde as roupas mais joviais de Page aos ternos sóbrios de DiCaprio, passando pelos vestidos de femme fatale exibidos por Marion Cotillard. Vale observar, também, a importância de detalhes como a aliança de Cobb, que pode ou não ser vista em sua mão ao seguir uma lógica interna impecável.




Contando com um elenco admirável, Nolan extrai de seus atores os atributos necessários para que cada personagem desempenhe um papel preciso e importante na história: DiCaprio, dividindo características de composição apropriadamente reminiscentes de sua atuação em Ilha do Medo (com o qual A Origem formaria excelente sessão dupla), surge tenso e gradualmente mais angustiado e inseguro à medida em que a projeção avança, ao passo que Joseph Gordon-Levitt, como Arthur, exibe uma firmeza de ação que mantém o público sempre convencido de sua competência e de sua importância para os planos do parceiro. Marion Cotillard, por sua vez, encarna, como já dito, uma femme fatale que poderia ter saído diretamente de um noir, enquanto Ellen Page, como uma jovem que ganha a oportunidade de realizar o sonho de qualquer arquiteto (literalmente, neste caso), evita se tornar apenas a personagem “novata” que, como tal, é usada exclusivamente como recurso expositivo para esclarecer conceitos para o espectador; em vez disso, ela se torna peça importante ao fazer jus ao nome e auxiliar os demais em suas trajetórias dentro dos sonhos.

Respeitando o espectador ao não insistir em interromper a narrativa periodicamente para mastigar os acontecimentos, Christopher Nolan mantém esta confiança até o instante final da projeção, evitando um desfecho auto-explicativo que simplifique e resolva tudo para o público – que, assim, sairá do cinema discutindo ativamente o significado do que acabou de testemunhar (incluindo, claro, a cena final). Isto não quer dizer, porém, que A Origem não se resolva; a diferença é que, graças à complexidade de sua narrativa, o filme permite múltiplas conclusões igualmente satisfatórias.

E o melhor é que, para cumprir a tarefa de decifrar completamente estas alternativas, tudo o que o espectador deve fazer é se dar o presente de mergulhar novamente no inteligente e fascinante universo construído por este que vem se confirmando como um dos melhores diretores da atualidade. Uma tarefa de sonhos, convenhamos.


Mapeando a Origem

De modo geral, A Origem não é uma obra que busca complicar muito a vida do espectador. Sim, ao estabelecer o conceito de sonhos construídos dentro de outros sonhos, é possível que, aqui e ali, acabe levando o público a confusões momentâneas (em certo instante, Ariadne pergunta: “Agora estamos entrando no inconsciente de quem, mesmo?”), mas basta um pouco de paciência para que logo alcancemos os personagens e voltemos a nos situar dentro da narrativa.

Este jogo tem início logo na seqüência que abre o filme e que logo revela estar ocorrendo dentro de um sonho. Buscando convencer Saito a confiar seus segredos a ele, Cobb explica o conceito dos invasores de sonhos e se apresenta como um especialista capaz de treinar o executivo para que este seja capaz de se defender de espiões como ele. Segundos depois, no entanto, descobrimos que Cobb e Arthur já se encontram em um sonho, que acaba entrando em colapso quando Saito percebe a armação. Com a ação aparentemente frustrada, todos despertam em um pequeno apartamento e o japonês se mostra desapontado com a obviedade da estratégia dos ladrões – até que, ao observar um detalhe do cenário, percebe estar em outro sonho.

É assim, portanto, que Nolan estabelece um dos conceitos principais de seu filme – e a pergunta que os espectadores mais curiosos irão fazer é: mas, afinal, quem eram os responsáveis por cada “nível” de sonho?
Neste primeiro exemplo, a resposta é relativamente simples: Cobb, Arthur e Nash (Haas) se encontram em um trem-bala ao lado de Saito no mundo real. Quando todos adormecem, o “sonhador” que abriga o ambiente onírico é Nash, o arquiteto – e este primeiro nível de sonho é justamente o apartamento. A partir daí, Arthur e Cobb voltam a mergulhar em sedação ao lado de Saito, criando um segundo nível no qual o “sonhador” é Arthur – e descobrimos isso quando este é “morto” e volta ao primeiro nível, quando, então, o segundo sonho passa a entrar em colapso graças à sua ausência. Nesta seqüência, aliás, também descobrimos uma informação importante: o “sonhador” responsável por cada nível deve permanecer no ambiente que está hospedando enquanto os demais mergulham em camadas mais profundas – exatamente como Nash permaneceu no “apartamento”.

A partir destas informações acerca do mecanismo dos sonhos, podemos mapear com mais facilidade a complexa seqüência que surge como clímax da narrativa: no mundo real, Cobb, Arthur, Ariadne, Saito, Eames (o excelente Tom Hardy) e Yusuf (Rao) sedam o bilionário Fischer no avião – e todos entram em um sonho abrigado pelo especialista em sedação, Yusuf (sabemos disso por dois motivos: como ele está com a bexiga cheia, o sonho envolve chuva; e, mais tarde, quando todos mergulham em um nível mais profundo, ele permanece ali para manter o sonho estável). Nesta camada, o propósito da equipe é plantar o início da idéia na mente de Fischer, que deve ser levado a dividir o império deixado pelo pai.

Para isso, a equipe “seqüestra” o sujeito e Eames assume a identidade de Browning (Berenger), um homem no qual a vítima confia completamente. O propósito final, lembrem-se, é levar Fischer a abrir um cofre no nível mais profundo de seu inconsciente, descobrindo a semente de uma idéia que deverá acreditar ser sua. No entanto, para isso é fundamental que o rapaz acredite estar abrindo um cofre inviolável, sem desconfiar que a tal “semente” (um testamento que, assumindo a forma de um cata-vento, reforça sua ligação com a própria infância) foi plantada ali pelos invasores. É por esta razão que “Browning” (na realidade, Eames) revela a existência do tal testamento e Cobb obriga Fischer a dizer os primeiros números que surgirem em sua mente.
De posse destes números, todos (com exceção de Yusuf, que permanece no primeiro nível) voltam a se sedar, mergulhando num sonho que desta vez é abrigado por Arthur – reparem que o design básico do hotel remete às cores do sonho que abre o filme, também hospedado pelo personagem – e percebam que é ele quem ficará para trás quando todos descerem para o terceiro nível. Ali, Cobb se reapresenta a Fischer (que já esqueceu o sonho anterior) e explica que estão num sonho ameaçado por invasores, pedindo que este tente se “lembrar” do que estão buscando os ladrões – e é aí que os números anteriormente “plantados” são novamente reapresentados ao rapaz na forma de um número de telefone. Convencido de que aquele telefone foi originado por seu próprio inconsciente, Fischer é convencido de que eles representam o número de um quarto de hotel, sendo levado para lá por Cobb e sua equipe.

O bilionário encontra-se, então, plenamente convencido de estar sendo guiado por projeções de seu próprio inconsciente, sem desconfiar de que Cobb, Ariadne e os demais são invasores reais. É então que Eames volta a assumir a aparência de Browning e se apresenta como traidor ao rapaz, que fica atordoado com a revelação. Cobb, aproveitando a vulnerabilidade provocada na vítima, sugere que todos entrem no sonho de “Browning” para descobrir o que este tramava – e Fischer prontamente aceita, sem saber que, na realidade, estará entrando na mente de Eames.

Que, portanto, abriga o terceiro nível dos sonhos. É ali que se encontra o cofre que, aberto com os números que Fischer agora julga serem criação sua, revelará a semente da idéia encomendada por Saito – e que o pobre rapaz acreditará ter sido originada em sua própria mente.

Contudo, as coisas se complicam: Fischer e Saito são mortos antes do cofre ser aberto (na realidade, Saito vinha ferido desde o primeiro nível). Normalmente, a morte nos sonhos apenas levaria a vítima a despertar, mas a forte sedação, impedindo que isto ocorra, arremessa o sonhador a um nível mais profundo que Cobb batiza de “limbo”. Sem um ambiente planejado por um arquiteto, este limbo surgiria como um espaço vazio no qual seus ocupantes compartilhariam seus inconscientes – isto se Cobb e sua falecida esposa não tivessem passado o equivalente a 50 anos naquele nível, preenchendo-o com suas memórias e fantasias. É ali que Fischer é encontrado por Cobb e Ariadne depois que estes voltam a se sedar no terceiro nível (deixando Eames para trás, logicamente).

A esta altura, Nolan já levou o espectador a conhecer cinco níveis de realidade que apresentam ações paralelas: o mundo real e as camadas sonhadas por Yusuf, Arthur e Eames, além, claro, do limbo. E estabeleceu, também, que o tempo tem durações diferentes nestes “andares”: dez horas de sono no mundo real equivalem a uma semana no primeiro nível, alguns meses no segundo e dez anos no terceiro – um conceito fundamental para o despertar dos personagens, que só podem abandonar cada nível com a utilização de um “chute” (algo que provoque um grande choque, como uma queda ou a sensação de mergulhar em água gelada).

Reencontrando Fischer, Ariadne agora deve levá-lo de volta ao terceiro nível e, para isso, sincroniza um “chute” com a ressuscitação feita por Eames no andar superior – e quando este usa o desfibrilador no “corpo” do rapaz, a arquiteta atira-o de uma grande altura, no limbo, levando-o a despertar novamente diante do cofre. (Caso não tivesse sido simultaneamente ressuscitado por Eames no terceiro andar, Fischer simplesmente voltaria a morrer e retornaria ao limbo.) Em seguida, Ariadne também se atira do prédio e, com o “chute”, volta ao nível superior.

E é neste momento que Christopher Nolan e o montador Lee Smith orquestram um momento tão magnífico que, confesso, fui levado às lágrimas durante a projeção simplesmente por admirar a beleza da carpintaria dramática da seqüência: para que possam retornar ao primeiro nível dos sonhos (e, daí, para o mundo “real”), os heróis são obrigados a sincronizar os “chutes” em cada andar para que estes ocorram milissegundos antes dos “chutes” que virão no nível seguinte, levando-os, assim, de volta ao início. Para isso, usam a música cantada por Piaf como aviso sonoro que penetra em todas as camadas, permitindo que coordenem suas ações – e vê-los despertando em seqüência em cada “andar” foi algo que me comoveu de maneira inesperada justamente em função da inteligência e da elegância da estrutura da narrativa.

Uma estrutura que, claro, ainda precisaria de mais algum tempo para se completar de vez, já que, afinal, ainda deveria lidar com Cobb e Saito, que permaneciam presos no limbo.


O Fim da Origem

O que descobrimos, quase no desfecho do longa, é que Cobb já havia plantado uma idéia que resultara em desastre: depois de permanecer o equivalente a décadas no limbo ao lado de Mal (Cotillard), ele se apossara de seu totem para convencê-la de que aquilo era apenas um sonho.





(Um totem é um objeto que o “sonhador” deve escolher no mundo real e que apenas ele deve tocar; assim, ao manipulá-lo – e por ser a única a conhecer suas características -, a pessoa saberá se está sonhando ou não.)

Assim, depois de ser perseguido pela projeção das lembranças da esposa (que se matara no mundo real por julgar ainda estar em um sonho), Cobb finalmente a confronta no limbo e é apunhalado enquanto Ariadne retorna com Fischer para o terceiro nível. Isto, porém, é o ideal, já que, ao voltar a morrer – e ainda sob forte sedação -, o sujeito simplesmente retorna ao limbo, o que lhe permite encontrar Saito, que, tendo chegado ali antes (e em função do tempo dilatado nos níveis mais profundos), agora é um velho que beira a insanidade. O protagonista então busca alertar o outro sobre a realidade daquele lugar, tentando convencê-lo a se matar – já que, com o fim da sedação, a morte agora levaria ambos de volta ao mundo consciente.

Saito parece mover a mão em direção à arma que se encontra à sua frente e... Cobb e Saito despertam no avião. Inocentado graças à interferência do japonês, o herói retorna à sua casa e reencontra os filhos, finalmente sendo capaz de enxergar seus rostos (algo que o afligia durante toda a projeção). Nos segundos finais do filme, porém, ele gira seu totem sobre uma mesa, para certificar-se de que não está sonhando, mas abandona o aposento antes que o objeto pare de rodar – o que comprovaria estar no mundo real. Nolan, sádico, enfoca o totem por mais algum tempo, mas corta para os créditos finais antes que este finalmente interrompa o movimento, deixando o público inseguro acerca do que acabou de ver.

Afinal, Cobb voltou realmente a se encontrar com os filhos ou ainda permanece sonhando?

É uma questão intrigante que permite respostas múltiplas: em primeiro lugar, seria possível até mesmo que Mal estivesse correta em sua percepção e que tudo o que vimos ao longo de A Origem fosse apenas um sonho de Cobb. Neste caso, ao se matar ela teria retornado de fato ao mundo consciente, deixando o marido preso nos sonhos embora este acreditasse justamente no oposto. Há alguns elementos ao longo da narrativa que poderiam indicar esta alternativa, desde a cena no porão de Yusuf, quando um velhinho que ministra sedação afirma que, para seus clientes, “o sonho se tornou realidade”, até o instante em que, sendo perseguido por alguns capangas, Cobb se espreme em um bequinho durante sua fuga – numa imagem típica de sonhos. Além disso, como o sujeito pegou o totem que pertencia à esposa, é possível que as cenas nas quais ele manipula o objeto para se certificar da realidade à sua volta sejam mentirosas justamente graças a algum tipo de falsificação feita pela dona original do brinquedo.

Esta explicação, no entanto, envolveria uma imensa desonestidade por parte de Nolan, que, afinal, gasta um tempo precioso explicando a função do totem – e seria impensável que, depois de tudo isso, o tal objeto simplesmente não desempenhasse função alguma. Assim, devo dizer que rejeito esta alternativa.

O que nos deixa, então, com a opção de que toda a ação do filme tenha de fato ocorrido e que apenas o destino final de Cobb se mantenha dúbio: ele conseguiu, afinal, abandonar o limbo depois de encontrar Saito ou não?

Por um lado, bastaria que Saito baleasse Cobb e se matasse em seguida para que tudo se resolvesse – e mesmo que o japonês se recusasse a fazê-lo, Cobb poderia matá-lo e cometer “suicídio”. No mínimo, ao tentar atacar Saito, Cobb provavelmente seria morto, retornando à realidade (é difícil acreditar que o outro o manteria prisioneiro no limbo e sob constante supervisão para impedir sua “morte”) – e como ambos surgem despertando no avião, é razoável acreditar que tudo tenha funcionado bem.

Por outro lado, isto seria funcionar bem demais. Afinal, com um telefonema Saito parece livrar Cobb da perseguição da justiça norte-americana e, pouco depois, o herói já se encontra reunido à família, o que é excessivamente conveniente. Além disso, é no mínimo estranho que seus filhos usem roupas praticamente idênticas àquelas que vestiam em seus sonhos, que façam movimentos estranhamente similares e – mais do que isso – que não pareçam ter envelhecido um segundo desde a última lembrança do protagonista, já que este parece ter ficado no mínimo um ou dois anos longe delas.

E há, claro, o totem. Ao ser girado nos sonhos, o objeto mantinha um movimento impecável, sem oscilações visíveis, ao passo que, na cena final, ele claramente oscila. Além disso, exatamente no instante em que Nolan corta para os créditos, há um som que poderia indicar o início da queda do objeto.

Que, contudo, poderia perfeitamente ter continuado a girar, indicado se tratar de um sonho.

Em outras palavras: cada espectador poderá chegar a uma conclusão perfeitamente legítima a partir de suas próprias inclinações. Aqueles que apreciam um final feliz podem defender com convicção o reencontro de Cobb com os filhos, ao passo que os céticos não estarão errados em afirmar que o protagonista jamais despertou dos sonhos (ou, no mínimo, que ainda não voltou à realidade).

Minha percepção particular? Jamais poderemos ter certeza – e acredito que Nolan plantou esta dúvida por um motivo importante: o próprio Cobb, depois de ter vivenciado tudo aquilo, tampouco poderá sentir conforto na realidade. Ele sabe que seu totem pertencia a Mal e, assim, poderia ser manipulado em sonhos; ele sabe que a permanência no limbo acaba levando o sonhador a acreditar que aquele é o mundo real; e ele sabe que, da mesma forma que plantou a idéia em Mal de que tudo não passava de um sonho, ele mesmo pode ter sido vítima desta semente – como aponta a última conversa que mantém com a esposa diante de Ariadne, antes de ser esfaqueado.

Assim, a incerteza do espectador diante do final reflete apenas a dúvida do próprio protagonista acerca de sua própria realidade. Uma solução que, confesso, me encanta pela elegância e simetria e que, portanto, passo a defender como a definitiva.

Scanners - 1981

Sua mente pode destruir


Sinopse:
Nascidos de uma experiência num laboratório, os scanners são pessoas com extraordinários poderes telecinéticos e mentais, capazes até mesmo de matar com a força da mente. O filme conta a batalha que se estabelece quando algumas dessas pessoas passam a utilizar seus poderes de maneira destrutiva e eles só podem ser detidos por alguém que tenha os mesmos poderes.
Reunidos numa organização clandestina, os scanners preparam a derrubada do governo estadunidense e, a partir daí, a dominação mundial. O governo, para os combater, começa a contratar os seus próprios scanners, se necessário através de lavagens ao cérebro e "conversões" forçadas.

Curiosidades:

 
•Em Scanners, Cronenberg conseguiu realizar uma produção com efeitos de maquiagem excepcionais, muito antes dos atuais recursos digitais, com técnicas inovadoras que acrescentaram realismo às cenas de cabeças explodindo e às transformações das personagens. A partir deste trabalho, David Cronenberg conseguiu abrir as portas de Hollywood para seu ousado e insólito estilo de direção.
•Scanners retrata uma espécie de grande guerra telepática, e a primeira ideia de Cronenberg foi, aliás, filmá-la como uma história de espionagem com notórios ecos da "guerra fria".
•A cabeça explodindo foi feita com uma cabeça de borracha, recheada com ração de cachorro e pedaços de carne, ativada por um tiro de espingarda calibre 12.

Informações:


Título Original: Scanners
Direção: David Cronenberg
Origem: Canadá
Duração: 106 min
Idioma: Inglês
Legendas: Português
Formato: rmvb

Tamanho: 336 mb

Servidor: Megaupload

Dowload
http://www.megaupload.com/?d=MFLKN1FV

Requiem para um sonho - 2000


Sinopse:


O retrato de uma perturbada e frenética história de personagens que se envolvem com seus sonhos e vícios.

Curiosidades:

•Este é o 1º de 2 filmes em que o diretor Darren Aronofsky e a atriz Ellen Burstyn trabalham juntos. O posterior foi Fonte da Vida (2006). - A maioria dos filmes contém entre 600 e 700 cortes.
•Réquiem para um Sonho possui mais de 2000 cortes.
•Esta é a segunda vez em que o livro "Last Exit to Brooklin", escrito por Hubert Selby Jr. e que foi adaptado em Réquiem para um Sonho, é adaptado para o cinema. A primeira fora em 1989 e recebeu o nome de Noites Violentas no Brooklyn.
•O ator Jared Leto emagreceu 12 quilos para interpretar seu personagem em Réquiem para um Sonho.

Informações:

Título Original: Requiem for a Dream
Direção: Darren Aronofsky
Origem: EUA
Duração: 102 min
Idioma: Inglês
Legendas: Português
Formato: rmvb
Tamanho: 328 mb

Servidor: Megaupload

Dowload
http://www.megaupload.com/?d=6IL06H5F

Midnight Express - 1978

Sinopse:


Billy Hayes (Brad Davis), um estudante americano, ao visitar a Turquia decide traficar alguns pacotes de haxixe, prendendo-os debaixo de suas roupas. Seu plano acaba não dando certo e ele é preso, com
sua vida se transformando em um pesadelo a partir de então, pois é brutalmente espancado e jogado em uma imunda prisão. Quando espera ser libertado é levado a um novo julgamento com efeito retroativo, que o condena a uma longa pena.
Informações:
Título Original: Midnight Express
Direção: Alan Parker
Origem: EUA
Duração: 115 min
Idioma: Inglês
Legendas: Português
Formato: rmvb
Tamanho: 378 mb
Servidor: Megaupload


Dowload
http://www.megaupload.com/?d=54D90Z6V

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Não matarás - 1988



Sinopse:


Neste belo e perturbador filme, o diretor Kielowski analisa a Polônia moderna com seus princípios socialistas. Utilizando uma quantidade mínima de diálogos, o cineasta se concentra no poder da imagem e das cores. Quando um jovem polonês desempregado, obcecado pela violência, mata friamente um motorista de taxi, um advogado recém-formado é designado para defendê-lo. Kieslowski demonstra através dos três protagonistas a anatomia de um crime e os meandros da justiça de um Estado totalitário.


Informações:

Título Original: Krótki Film o Zabijaniu
Direção: Krzysztof Kieslowski
Origem: Polônia
Duração: 84 min
Idioma: Polonês
Legendas: Português
Formato: rmvb
Tamanho: 267 mb

Servidor: Megaupload
dowload
http://www.megaupload.com/?d=4H45YIEA